Finlândia: a tragédia na escola

Eu havia dado por encerrado este space sobre a minha viagem à Finlândia. Mas a tragédia na escola de Jokela (em Tuusula, no sul da Finlândia) em que um jovem de 18 anos matou sete colegas, a diretora da escola, e, depois, a si próprio, tudo isso no dia seguinte ao do meu retorno da Finlândia, me fez decidir acrescentar mais um triste capítulo a este blog.

Transcrevo abaixo a notícia dada pela Folha de S. Paulo de hoje. Parece, de início, inexplicável — embora, como em casos semelhantes, especialmente nos Estados Unidos, os detalhes que inevitavelmente irão aos poucos surgindo nos próximos dias certamente removerão, em parte, a inexplicabilidade do caso. Em parte, digo eu, porque dificilmente conseguiremos considerar plenamente explicado um acontecimento como este em que fica evidente que a vida de uma pessoa jovem, num país rico, cuja educação é considerada a melhor do mundo, pode, ainda assim, dar terrível e tragicamente mente errado.

Não tenho dificuldade em entender o fato de que alguém queira colocar fim à própria vida. Ainda que como exercício acadêmico, já refleti, várias vezes, sobre que acontecimentos e condições poderiam me levar, um dia, a tomar uma decisão dessas. Não sei se, se concluir um dia que o contexto justifica uma decisão desse tipo, terei coragem de implementá-la. Mas consigo entender, in abstracto, que alguém possa decidir matar-se e implementar essa decisão.

A escolha da forma que o suicídio vai tomar revela um pouco da mente do suicida.

Há gente que se mata quietinho, tomando uma dose excessiva de remédios, ou ingerindo veneno. Quem os descobre mortos certamente deve levar um choque, mas, de início, o choque não será diferente do que se tem ao se descobrir morta uma pessoa que foi dormir bem — e que morreu de causas naturais durante o sono.

Há gente que escolhe uma forma de suicídio mais teatral. Afogar-se num rio ou no mar andando para dentro da água. Ou jogar-se de uma ponte — a Golden Gate Bridge de San Francisco parece ser quase irresistível para suicidas assim mais teátricos, a ponto de terem colocado grades na beirada da ponte para impedir que as pessoas saltem para a morte.

Há ainda gente que dá tiro na cabeça, salta de prédios, etc., deixando à vista dos infelizes que acorrem ao local primeiro um cenário deprimente, com sangue por todo lugar — e, por vezes, mais que isso.

Há gente que se suicida em público, procurando levar consigo o máximo de pessoas, como os homens/mulheres-bomba, mas que fazem isso por uma causa política. A publicidade e a teatralidade do ato é, neste caso, parte da motivação. Na verdade, a pessoa, na realidade, nem quer se matar por algum problema pessoal que esteja enfrentando: quer causar impacto, quer fazer uma declaração política — matar os outros e a si próprio no processo é parte dessa declaração política,

O que acho difícil de entender são os que, como o rapaz desta história, resolvem se matar em meio a uma grande matança de gente que, aparentemente, nada tem que ver com os suicidas, mas que, a primeira vista, não estão fazendo uma declaração política, ou, se o estão, essa declaração é tão sussurada que poucos conseguem entendê-la.

Por que esse gesto de morrer matando, por que não morrer quieto e sozinho num canto, por que morrer fazendo um espalhafato e esparramando sangue?

Parece que há, no caso, uma tentativa de fazer algum tipo de declaração. Como no caso recente nos Estados Unidos, que acaba de completar um ano, há vídeos no YouTube, há mensagens na Internet. Mas os vídeos parecem ser meio crípticos. O fundo musical já foi usado em outra tragédia semelhante, em Columbine… Será que os eventos ocorridos em escolas americanas inspiraram — se é que esse termo é apropriado — o suicida?

O suposto autor dos vídeos declara: "Estou preparado para lutar e morrer por minha causa". OK. Há muita gente disposta a fazer isso. Mas qual é a causa??? "Como um selecionador natural, eliminarei todos aqueles que vejo como desgraças inaptas para a raça humana e como falhas da seleção natural", segue o texto (segundo a versão da Folha). Mas será que a melhor forma de eliminar "desgraças inaptas" que surgiram como "falhas da seleção natural" é matando gente aleatoriamente, sem vê-las, por detrás de portas fechadas? 

Morrer fazendo uma declaração e levando outros consigos é até inteligível — desde que a linguagem da declaração seja inteligível. O árabe que se explode em um shopping center israelense, ou o muçulmano que explode o avião em que se encontra nas Torres Gêmeas fazem declarações políticas que é possível entender, mesmo que seu objeto seja indefensável moral e politicamente.

Mas morrer fazendo uma declaração ininteligível é algo difícil de entender. Especialmente quando se trata de uma pessoa jovem que, por mais errado que tenha saído sua vida até aqui, tem, na realidade, pelo menos mais quatro ou cinco dessas vidas pela frente para acertar o que está errado — até porque vive num país rico economicamente e culturalmente, freqüenta uma escola que é tida entre as melhores do mundo, e tem à sua disposição, na escola, um sistema elaborado de "student welfare" que poucos países possuem — eu nunca havia ouvido falar de uma instituição desse tipo dentro do sistema escolar: um setor do Ministério da Educação preocupado exclusivamente com o bem-estar do estudante.

Vamos ver se, nos dias que seguem, as investigações descobrem evidências que ajudem dar alguma aparência de sentido ao que, no fundo, ficará para sempre sem sentido.

Eu, por meu lado, fico com uma pulguinha atrás da orelha. Nos últimos três dias a única música que tenho ouvido é de Jean Sibelius, o maior compositor finlandês da história. As músicas são maravilhosas: as sinfonias, os concertos para violino… Lindas, lindas, lindas — quase digo "lindas de morrer"… E tristes, tristes, tristes. Até a valsa mais famosa — e mais linda — que ele compôs é chamada de Valsa Triste: tristemente linda. Até eu, em regra alegre, fico triste e macambúzio ao ouvi-la. Talvez ficasse até deprimido, se não pudesse olhar para fora e ver o sol brilhando, o céu azul, os flamboyants em flor, os pássaros cantando… — e se não pudesse, de vez em quando, ouvir um sambinha alegre e malandro.

Por fim… fico imaginando se as manifestações das autoridades educacionais finlandesas nos eventos de que participei nos últimos quinze dias seriam, à vista da tragédia, mais reflexivas e menos auto-louvativas do que foram. Ou se elas iriam se auto-elogiar por terem tratado rápida e eficientemente o problema…

Em Salto, 8 de Novembro de 2007


Folha de S. Paulo
8 de novembro de 2007

Estudante na Finlândia mata sete colegas e diretora

Agressor se suicida; vídeo no YouTube prenunciou massacre na escola Jokela

Pistola foi registrada pelo adolescente de 18 anos; 3º país em porte de armas per capita, Finlândia nunca tivera incidentes do tipo

DA REDAÇÃO

Um adolescente armado que aparentemente postou clipes com ameaças no site YouTube matou ontem sete colegas e a diretora de sua escola em Tuusula, no sul da Finlândia. Dez outras pessoas foram feridas ao tentarem fugir do local.

Portando uma pistola .22, o rapaz de 18 anos cuja identidade não foi revelada entrou na Escola Jokela, pouco antes do meio-dia (8h em Brasília), e percorreu classe por classe, atirando, antes de se matar. Com uma bala na cabeça, chegou a ser internado em um hospital local, mas não resistiu.

"Ele avançou sistematicamente pelos corredores da escola, batendo nas portas e atirando através delas", disse a professora Kim Kiuru. "Meus alunos gritavam, perguntando o que fazer, e eu lhes disse que saltassem pela janela. Todos se salvaram", contou.
Tuomas Hulkkonen, um aluno que disse conhecer o agressor, afirmou a uma rede de TV que o rapaz vinha agindo "de modo estranho" ultimamente. "Ele se recolheu em sua concha. Só notei essa mudança recentemente e achei que ele talvez estivesse meio deprimido. Mas nunca achei que ia acabar assim", disse o rapaz à MTV3.

Cinco garotos, duas meninas e uma mulher foram mortos, informou Matti Tohkanen, chefe de polícia de Tuusula, cidade de 35 mil habitantes a cerca de 50 km de Helsinque. O agressor, disse, vinha de "uma família comum" e não tinha antecedentes criminais. A arma usada no ataque era legal e fora registrada pelo próprio adolescente no último dia 19.

"Quando a polícia chegou, era o caos completo, havia alunos pulando das janelas", disse o inspetor Timo Leppala. A Jokela tem cerca de 500 alunos do ensino médio e fundamental, com idades de 12 a 18 anos.

O premiê Matti Vanhanen disse que se trata de "um evento extremamente triste".

Vídeo

O vídeo no YouTube – tirado do ar – mostrava a foto de um prédio que parecia a Jokela com o rock "Stray Bullet" (Bala Perdida) ao fundo. Em um recurso de edição, a foto se partia e dava lugar à imagem, em vermelho, de um homem apontando uma arma para a câmera.

O clipe, intitulado "Jokela High School Massacre – 7/11/ 2007", foi postado por Sturmgeist89. Mensagem do mesmo autor diz: "Estou preparado para lutar e morrer por minha causa". "Como um selecionador natural, eliminarei todos aqueles que vejo como desgraças inaptas para a raça humana e como falhas da seleção natural", segue o texto.

A letra de "Stray Bullet", do KMFDM, já figurou em um site mantido por Eric Harris, co-autor do massacre da escola Columbine, nos EUA, em 1999.

Outro clipe postado pelo mesmo Sturmgeist89 mostra um rapaz de jaqueta escura carregando uma pistola e disparando em um bosque. No fim, ele sorri e acena para a câmera. Num terceiro vídeo, há fotos do mesmo garoto com uma pistola e uma camiseta na qual se lê: "A humanidade é superestimada".

Até o fechamento desta edição não se sabia, no entanto, se o menino nos vídeos era o mesmo que executou o ataque.
Apesar de ter o terceiro índice mundial per capita de porte de armas – 56 para cada cem pessoas, atrás de EUA e Iêmen -, incidentes como o de ontem são raros na Finlândia.

Segundo a mídia local, houve quatro esfaqueamentos em escolas do país desde 1999, nenhum deles fatal. Este é o primeiro caso de tiroteio.

[Com agências internacionais]

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About Eduardo Chaves

[English] Eduardo Chaves is responsible for this blog. Eduardo Chaves is a writer, lecturer and consultant (private companies, NGOs, schools), and was a professor of philosophy during 45 years, before retiring from the University. Of these 45 years 70% were spent as Professor of Philosophy and History of Education at the University of Campinas (UNICAMP), in Campinas, SP, Brazil, where he worked in the Department of Philosophy and History of Education of the School of Education. His activity as a lecturer and consultant are the interactions between Change, Innovation, and Technology, in special in the area of Education. As a writer, he has been quite active in this over than 30 blogs since 2004. His writing covers the areas of Philosophy, Theology, Education and Politics (especially from the view point of Classical “Laissez-Faire” Liberalism). Secondarily, his blogs also discuss other areas, such as literature, cinema, and, more rarely, the other arts. He also writes on Epistemology and the Philosophy of Science. He was born on the 7th of September of 1943, is married, and has four daughters. He presently lives in a farm in the rural area of Salto, SP, Brasil, with his wife and professional partner Paloma Epprecht e Machado de Campos Chaves, Professor of Education in the Teacher Certification Program of the Federal Institute of Education, Science and Technology in the State of São Paulo (IFSP), Capivari campus. E-mail: eduardo@chaves.pro Portal de Blogs: https://chaves.space/ Fone: +55 (11) 97984-0000 Impressum: Blog published under the responsibility of: Eduardo O E M C Chaves (Ph.D., M.Div., B.D.) E-Mail: eduardo@chaves.pro E-mail: eduardo@chaves.space E-mail: ec@educhv.com E-mail: chaves@liberal.academy Site: https://chaves.space [Português] Eduardo Chaves é o responsável por este blog. Eduardo Chaves é escritor, palestrante e consultor (empresas, ONGs, escolas), tendo sido professor universitário por 45 anos (função da qual está hoje parcialmente aposentado). Desses 45 anos, mais de 70% foram passados como professor de Filosofia da Educação na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em Campinas, onde por 26 anos foi Professor Titular dessa matéria no Departamento de Filosofia e História da Educação (DEFHE) da Faculdade de Educação (FE). A especialidade em que atua como palestrante e consultor são as interações existentes hoje entre Mudança, Inovação e Tecnologia, em especial na área da Educação. Como escritor, atua principalmente em seus blogs, que cobrem principalmente Filosofia, Teologia, Educação e Política (em especial do ponto de vista Liberalismo Clássico). Secundariamente, seus blogs também discutem outras áreas, como a literatura, o cinema, e, mais raramente, as demais artes. Ele também escreve sobre Epistemologia e Filosofia da Ciência. Ele nasceu em 7 de Setembro de 1943, é casado, e tem quatro filhas. Reside atualmente na zona rural em Salto, SP, Brasil, com sua mulher e parceira profissional, coproprietária deste blog, Paloma Epprecht e Machado de Campos Chaves, professora de educação nas licenciaturas do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), câmpus de Capivari. E-mail: eduardo@chaves.pro Portal de Blogs: https://chaves.space/ Fone: +55 (11) 97984-0000 Impressum: Blog publicado sob a responsabilidade e editoria de: Eduardo O E M C Chaves (Ph.D., M.Div., B.D.) E-Mail: eduardo@chaves.pro E-mail: eduardo@chaves.space E-mail: ec@educhv.com E-mail: chaves@liberal.academy Site: https://chaves.space
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