O décimo terceiro dia da viagem: 3 de Novembro

Acordei-me às seis horas hoje com as badaladas do sino do relógio da Catedral Luterana, que fica ao lado do hotel. A primeira já me acordou — e fui contando as demais para saber que horas eram. Da minha janela dá para ver o lindo relógio na torre da igreja. A torre se parece com a torre do prédio da administração do seminário onde estudei em Pittsburgh, de 1967 a 1970.

Fui responder meus e-mails e entrei na minha conta no Orkut, para ver como estava a comunidade "Eu fiz parte da EduTec", comunidade essa criada pelo meu amigo Rev. Wilson Azevedo, um dos primeiros ingressantes na EduTec.

A EduTec foi literalmente a primeira grande comunidade virtual existente no Brasil. Formalmente era uma lista de discussão na Internet (no Yahoo! Groups). Na prática e na realidade tornou-se uma real comunidade virtual, que chegou a ter mais de mil membros. O tema básico do grupo era Educação e Tecnologia, mas, na prática, a gente discutia educação em geral — e até mesmo outros tópicos.

Em 2000, quando coordenei o Congresso Educador, da Promofair, que teve cerca de quatro mil participantes aquele ano, tivemos um encontro presencial de um bom número dos membros da EduTec: o núcleo central esteve lá. Saímos jantar um dia, no restaurante do Hotel Ibis, onde muitos estávamos hospedados. Outro dia fomos tomar chopp no Shopping Center Norte. Foi uma experiência deliciosa. Lembro-me de que participaram do encontro o Renato Soffner, o Renato Mineiro, o Delarim, a Lenise, a Raquel, a Edilene, a Lourdinha, a Clara… E muitos outros. A Microsoft me deu um brinde para distribuir (um porta-lápis, no qual estava escrito EDUTECNET e MICROSOFT — ainda tenho alguns deles em casa) e mandei fazer um crachá com o nome de cada um…

A gênese da EduTec foi a seguinte… No final de Outubro de 1998 tive um encontro com Carlos Alberto Ferreira, que era Gerente de Educação da Microsoft Brasil. Ele me recomendou criar o site EduTec.Net (o nome era EDUTECNET) e a lista — e foi o que fiz. Ele logo deixou o cargo na Microsoft e a Márcia Teixeira assumiu a posição que ele tinha — e me concedeu ajuda financeira para dar ao site uma cara mais profissional (que é a cara que o site http://edutec.net ainda tem até hoje: não tenho tido tempo e tesão para atualizá-lo.

No devido tempo registrei os domínios edutec.net, edutecnet.com e edutecnet.com.br. Registrei também no INPI a marca EduTec.Net.

No início, convidei uns poucos amigos para participar e a lista foi crescendo naturalmente daí para frente.

O encerramento da lista foi em Setembro de 2001, quando do 9/11. Alguns membros da lista começaram a utilizá-la para, não demonstrando nenhuma sensibilidade, humana que fosse, com a tragédia, unir-se aos muçulmanos que dançavam nas ruas de alegria porque alguns atos terroristas de grande porte contra os Estados Unidos haviam sido bem sucedidos. Pensei comigo mesmo: "É para isso que estou mantendo essa comunidade virtual?" Concluí que não era e resolvi fechar a lista. Alguns membros ficaram revoltados e argumentaram que eu não tinha esse direito, que uma comunidade, uma vez criada, não pode ser destruída assim, que meu ato de destruição era pior do que o ato que destruiu as Torres Gêmeas, etc. Mantive-me na decisão tomada.

Alguns membros da EduTec formaram uma outra comunidade, que, acredito, existe até hoje, a Cogito (acho que é esse o nome). O criador dessa lista foi o Renato Mineiro, que havia sido um dos que soltaram rojões virtuais na EduTec quando as Torres Gêmeas foram destruídas. Mas, pelo que sei, a Cogito nunca cresceu muito.

O Renato Mineiro fez tese de Mestrado sobre a EduTec. Uma jornalista do Alagoas, de cujo nome não me recordo agora, fez seu trabalho de conclusão de curso de Especialização sobre a EduTec.

Achei interessante e curiosa a criação, agora, pelo Wilson Azevedo, da comunidade "Eu fiz parte da EduTec" no Orkut. Lá já foi lançada a questão se a EduTec deveria ser recriada. Eu, pessoalmente, acho que tentar recriar uma comunidade daquela é mais ou menos como tentar reconstituir um casamento depois de seis anos de divórcio: é uma iniciativa que pode até dar certo, mas que tem pouca chance.

A EduTec foi minha segunda aventura na área de comunidades virtuais.

Eu já havia tido uma lista de discussão sobre Educação e Tecnologia hospedada nos computadores da UNICAMP. Criada em 1987, chamava-se INFED. A lista era no que então se chamava de BitNet, rede iniciada pela IBM que fez as vezes de Internet enquanto esta não se expandia mundialmente.

A discussão na INFED era em Inglês — imaginei, quando a criei, que discutindo em Inglês ela atrairia mais participantes. O número de participantes chegou a passar de 300 — quando tive a idéia de convidar o Valdemar Setzer para participar. Ele literalmente implodiu a lista. Começou transcrever trechos enormes de um livro que estava escrevendo sobre o uso de tecnologia na educação e assustou todo mundo, ou, mais literalmente, encheu o saco de todo mundo. A lista começou a se esvaziar até que um dia a fechei.

Depois da EduTec, criei várias comunidades virtuais na Internet. A maior delas, que continua até hoje, é a 4pilares (vide http://4pilares.net). Mas não tem a mesma vitalidade da EduTec. Inicialmente a 4pilares foi patrocinada pela Microsoft e pelo Instituto Ayrton Senna. Quando o Instituto resolveu que não iria mais se envolver com isso, me autorizou a manter a comunidade em meu próprio nome. Isso resolveu uma série de problemas que a lista enfrentou, como, por exemplo, não discutir política. Foi em decorrência dessa determinação do Instituto que acabei criando uma segunda comunidade, a LivreMente (http://livremente.net) para discutir qualquer coisa, sem restrição alguma. A LivreMente continua até hoje, sendo palco de algumas brigas homéricas, especialmente envolvendo o Antonio Morales (o "Tonhão"), esquerdista de quatro costados e, como eu, ateu convicto, e a Lenise Garcia, da UnB, católica ferrenha, do Opus Dei.

O Tonhão é ex-diretor do SENAC de Bauru. Com sua mulher, Ely, ele foi colega de turma de minha mulher, Sueli, no Curso de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro (hoje UNESP). 

Mas nada disse nem que ver com Oulu, Finlândia… Apenas deixei minha mente correr solta.

Agora vou tomar banho, fazer a barba e descer para tomar café. Volto mais tarde.

Voltei logo depois do banho… Os banheiros aqui da Finlândia todos (que eu conheci) têm um rack de toalhas aquecido. Os canos em que as toalhas ficam penduras ficam bem quentes. Assim, quando você pega a toalha de banho para se secar ela está quentinha. Creio que num clima frio como este, essa é uma invenção genial. Especialmente porque o termômetro externo indica uma temperatura externa de -1 no momento… No quarto a temperatura é confortável: 22 graus.

São quase 8 e meia e o dia está começando a clarear agora.

Está chegando a hora do almoço. O sol até que ameaçou sair, mas parece que se arrependeu. Continua frio.

Eu ia até o shopping center hoje à tarde, mas parece que é feriado e o comércio está todo fechado. E amanhã é domingo, e, por isso, parece que o comércio continua fechado… 😦

Esqueci-me de dizer que ontem no jantar havia um historiador, doublê de comediante, que fez um monte de graça sobre a história da Finlândia. Depois ele andou no salão, conversando com os diversos grupos nacionais. Quando chegou à nossa mesa, descobriu imediatamente que estávamos falando Português, e, em seguida nos contou uma história. Dom Pedro II, segundo ele nos informou, veio à Finlândia em 1876. Aqui ficou amigo de todo mundo, como ele normalmente fazia. Chegou a gravar o nome dele, "Pedro II", numa árvore, e a gravação está lá até hoje — mais recentemente com uma placa colocada ali pela Embaixada Brasileira, informando quem era Pedro II, quando o nome dele foi gravado ali na árvore, etc. Não sei se é verdade, mas a história é plausível. Li recentemente uma biografia de Drom pedro II e fiquei sabendo que ele fez, mais ou menos na época mencionada, uma viagem longa à Europa. E o livro informa que Dom Pedro II era muito popular quando visitava outros países, porque se comportava como uma pessoa do povo e não como a realeza que de fato era.

Encerrado o encontro. Não gostei muito das apresentações de hoje — mas não vou comentá-las aqui. Agora vou sair um pouco para andar, refrescar a cabeça, e, depois, jantar.

21h: Voltei do jantar, muito bom, por sinal. Comi um entrecôte delicioso, de entrada comemos carpaccio de salmão e umas ostras fritas individualmente no óleo, com alha, dentro de umas caçapinhas "the likes of which I had never seen before".

Em Oulu, 3 de Novembro de 2007

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About Eduardo Chaves

[English] Eduardo Chaves is responsible for this blog. Eduardo Chaves is a writer, lecturer and consultant (private companies, NGOs, schools), and was a professor of philosophy during 45 years, before retiring from the University. Of these 45 years 70% were spent as Professor of Philosophy and History of Education at the University of Campinas (UNICAMP), in Campinas, SP, Brazil, where he worked in the Department of Philosophy and History of Education of the School of Education. His activity as a lecturer and consultant are the interactions between Change, Innovation, and Technology, in special in the area of Education. As a writer, he has been quite active in this over than 30 blogs since 2004. His writing covers the areas of Philosophy, Theology, Education and Politics (especially from the view point of Classical “Laissez-Faire” Liberalism). Secondarily, his blogs also discuss other areas, such as literature, cinema, and, more rarely, the other arts. He also writes on Epistemology and the Philosophy of Science. He was born on the 7th of September of 1943, is married, and has four daughters. He presently lives in a farm in the rural area of Salto, SP, Brasil, with his wife and professional partner Paloma Epprecht e Machado de Campos Chaves, Professor of Education in the Teacher Certification Program of the Federal Institute of Education, Science and Technology in the State of São Paulo (IFSP), Capivari campus. E-mail: eduardo@chaves.pro Portal de Blogs: https://chaves.space/ Fone: +55 (11) 97984-0000 Impressum: Blog published under the responsibility of: Eduardo O E M C Chaves (Ph.D., M.Div., B.D.) E-Mail: eduardo@chaves.pro E-mail: eduardo@chaves.space E-mail: ec@educhv.com E-mail: chaves@liberal.academy Site: https://chaves.space [Português] Eduardo Chaves é o responsável por este blog. Eduardo Chaves é escritor, palestrante e consultor (empresas, ONGs, escolas), tendo sido professor universitário por 45 anos (função da qual está hoje parcialmente aposentado). Desses 45 anos, mais de 70% foram passados como professor de Filosofia da Educação na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em Campinas, onde por 26 anos foi Professor Titular dessa matéria no Departamento de Filosofia e História da Educação (DEFHE) da Faculdade de Educação (FE). A especialidade em que atua como palestrante e consultor são as interações existentes hoje entre Mudança, Inovação e Tecnologia, em especial na área da Educação. Como escritor, atua principalmente em seus blogs, que cobrem principalmente Filosofia, Teologia, Educação e Política (em especial do ponto de vista Liberalismo Clássico). Secundariamente, seus blogs também discutem outras áreas, como a literatura, o cinema, e, mais raramente, as demais artes. Ele também escreve sobre Epistemologia e Filosofia da Ciência. Ele nasceu em 7 de Setembro de 1943, é casado, e tem quatro filhas. Reside atualmente na zona rural em Salto, SP, Brasil, com sua mulher e parceira profissional, coproprietária deste blog, Paloma Epprecht e Machado de Campos Chaves, professora de educação nas licenciaturas do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), câmpus de Capivari. E-mail: eduardo@chaves.pro Portal de Blogs: https://chaves.space/ Fone: +55 (11) 97984-0000 Impressum: Blog publicado sob a responsabilidade e editoria de: Eduardo O E M C Chaves (Ph.D., M.Div., B.D.) E-Mail: eduardo@chaves.pro E-mail: eduardo@chaves.space E-mail: ec@educhv.com E-mail: chaves@liberal.academy Site: https://chaves.space
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2 Responses to O décimo terceiro dia da viagem: 3 de Novembro

  1. Paloma Epprecht e Machado says:

    Embora more no Brasil, também tenho um porta toalhas aquecido… Para uma pessoa friorenta como eu, é um acessório indispensável. Meu sogro comprou na Nova Zelândia, durante o período de 5 ou 6 meses que morou lá, entre 2002 e 2003. Enviou uma para cada filho. Custou mais caro o envio do que o presente, propriamente dito. Beijinhos…

  2. Ju says:

    Sobre a visita de D Pedro II a Finlandia. O guia não mentiu náo. Tbm fui a Finlandia e fotografei a inscrição feita, mas em uma pedra em 27 de Agosto de 1876. Tirei muitas fotos em Imatra – onde existe uma Hidreletrica. Um pequeno Canion, onde nao corre mais água como deveria ser antes da construção da geradora. Ha um Mirante com uma pequena construção que lembra um coreto. Tambem vi a placa de metal com a inscrição em finalandes que diz ……Brazilian Keisari Dom Pedro II, Keisarina Katarina II, etc… as fotos estão no meu orkut. abraços

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